REPRESAS em espetáculo intimista

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DE TEATRO E IRREPETÍVEL

“Conta-me Histórias” é um ciclo de conversas-concerto com músicos portugueses, onde estes revelam alguns pormenores menos conhecidos da sua vida e maneira de pensar o mundo. São “estórias”, acompanhadas por algumas das suas músicas em formato acústico.
Nesse âmbito, o cantor e compositor Luís Represas, com 57 anos de vida e 38 de carreira, esteve em Monção, no Cine Teatro João Verde (CTJV), à conversa com o humorista Tito Couto e o jornalista Jorge Oliveira. Três cadeiras, uma mesa, uma viola e umas garrafas de alvarinho e do vinho alentejano que patrocina. E que deu azo a que o Tito Couto, que o apreciava, estabelecesse “provocações” com os outros companheiros de palco, mais virados para o néctar monçanense.

 

O CTJV, com cerca de três centenas de lugares, estava completamente cheio, sobretudo de pessoas do escalão etário ao nível da meia-idade. Que se regalou com as histórias e as músicas que tiveram oportunidade de ouvir ao longo de quase duas horas, na noite de 12 de setembro. Foram meia-dúzia de músicas e muita conversa, preenchida com momentos de boa disposição e outros mais sérios. Desde a do Tio Malaquias e do “mono quietinho” (energia autossustentável de acordo com uma teoria em que se utilizaria um dispositivo de moto-perpétuo) às das militâncias na União dos Estudantes Comunistas (UEC) e na LUAR. Nesta última, teve em Palma Inácio um mentor que levou seu pai a recear que o filho “andasse metido com assaltantes de bancos”.

Represas, todavia, enfatizou a referência, em valores e princípios, que o seu progenitor lhe transmitiu, apesar de, na sequência do “25 de Abril”, ter sido vítima de saneamento na, então, Emissora Nacional. A política não os afastou, até porque uma das coisas que o seu progenitor lhe transmitiu e Represas realça, foi “o respeito pelo próximo”.

REFÚGIO EM CUBA 

O artista não se furtou a falar dos Trovante (1976-1992), do espírito de amizade que se granjeava e da decisão, após o fim do grupo, de se “refugiar” em Cuba – e onde, de vez em quando, volta, como sucedeu há cerca de um mês. Ali trabalhou com músicos como Pablo Milanés, um dos maiores nomes do meio artístico deste país e com quem gravou o, já clássico, “Feiticeira”. Nesse sentido, deu conta da pujança cultural deste país das Caraíbas, apesar do sistema político que ali vigora. Todavia, asseverou, Cuba e Portugal são “dois países pobres, da mesma dimensão”, mas – defendeu – com enorme potencial cultural.

Quanto a Portugal e, apesar dos problemas com que se debate, considerou, ainda, que “não tem nada a ver com o país de há 20 anos”. Defendeu, também, que o exercício da cidadania não está, simplesmente, no voto, mas da maneira de intervir na sociedade e, até, de protestar.

Noutro registo, Luís Represas falou do convívio com a avó materna de Afife (Viana do Castelo) e da empregada doméstica da vizinha freguesia de Carreço, que poderia “parecer uma bruxa”, também “por causa” do pai, mas que, para ele, foi uma “segunda mãe”.

Reviu, na ocasião, o seu amigo (desde os seis anos de idade) Fernando Costa (neto do conhecido ator “Costinha”), presente na plateia e que, curiosamente, disse nunca ter assistido a um espetáculo ao vivo do Represas.

DROGA E ÁLCOOL 

Falou, ainda, do problema da toxicodependência, que a sua geração (na adolescência e juventude) não chegou, sobremaneira, a sentir (foi a imediatamente a seguir). Não ignorou, porém, os problemas de droga e álcool que afetam muita gente do meio artístico, considerando, ainda, hoje em dia, um “verdadeiro problema de saúde pública” o alcoolismo que se sente junto da população mais nova. “Atiram-se ao álcool, são noites inteiras com shots atrás de shots” – observou.

Pelo meio da conversa, interpretou, com a viola e a sua voz, meia dúzia de canções: “A Morte Saiu à Rua” (de Zeca Afonso), Yolanda (que Milanés tinha dedicado à sua companheira), Da Próxima Vez, Feiticeira, Ser Poeta (Perdidamente), 125 Azul e “Ela Quer”. Esta última é o tema de ponta do álbum “Cores”. Exemplares deste estavam à venda junto ao balcão da bilheteira do CTJV e onde, no final, Luís Represas surgiu para dar autógrafos e conversar, de forma amena, com alguns dos fãs que o esperaram.

DE ORIGEM GALEGA 

A ocasião serviu, também, para falar à reportagem do VALE MAIS. Uma conversa breve, mas descontraída e sem guião.

Luís, como surgiu isto do Conta-me Histórias?

Isso é mais com os produtores! Os espetáculos têm acontecido em vários sítios, acho que é um formato fantástico. Parece televisivo, mas não temos TV, só a intimidade do público e das pessoas que vieram naquele momento pagar o seu bilhete para o ver.

É uma coisa muito reservada, mais intimista e… quem viu, viu… quem não viu, não viu… Agrada-me imenso porque se partilham histórias, que podem ser comuns às das pessoas que estão a assistir, com as pessoas com quem estou a falar, e, ao mesmo tempo, as canções aparecem como o elo de ligação disto tudo.

Portanto, acho que é um formato muito original em termos não televisivos, mas, sim, de teatro.

Como são escolhidas as canções? 
O espetáculo é programado?

Não é! Nada disto é programado. Inclusivamente, os apresentadores perguntaram-me, no início, que canções ia tocar, respondi-lhe que não sabia…

Queres dizer que este espetáculo, noutra terra…

… poderá ser uma coisa completamente diferente. É o que te digo! É evidente que há histórias que se repetem, como é óbvio, mas tudo isto é perfeitamente irrepetível.

Pois… tens canções que falam de Timor, de Cuba…

… e podemos ir por aí fora. Acontecem ou não acontecem!

É verdade que és de origem galega?

A minha trisavó era galega, aqui de Tui. A mater família desta família Represas, que depois se desdobra em dois ramos, é da Galiza. É evidente que o meu sangue galego está cá. Muitas vezes, não sei se vem daí a minha aproximação à música popular de origem mais celta.

Agora, não faço disso um ponto de arranque. Sou lisboeta dos quatro costados! De segunda geração. Usufruo muito do facto de ser lisboeta porque sou, de facto, uma mistura de muita gente. Tenho sangue galego, minhoto, algarvio, alentejano, lisboeta, transmontano; em termos de sangue, acabo por ser quase uma metrópole…

No teu discurso ou conversa…

Conversa.

… insististe muita na ideia dos valores e princípios que os teus pais te transmitiram. Marcou-te?

Com toda a certeza. É aquilo que eu sou hoje. O ADN é uma coisa, mas o meu verdadeiro ADN é isso. É isso que eu transmito aos meus filhos e filhas (4) e espero que eles transmitam aos filhos deles.

E vais continuar com saudades do futuro?

Sempre! Sempre! Vivo o presente com um pé no passado, mas sempre com outro pé no futuro.

E a carreira vai continuar por quanto tempo… e sem pausas?

Não sei, não faço ideia. E não faço pausas nenhumas.

MSM

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