Rodrigo Guedes de Carvalho :: “[No Norte] há um cheiro e uma lua a dizer-me que estou em casa”

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Rodrigo Guedes de Carvalho nasceu há 54 anos no Porto, é jornalista há 32 e viu publicado o seu primeiro livro há 26. É, há já alguns anos, uma das figuras mais mediáticas do meio televisivo.

Além disso, tem-se revelado, a par de um sóbrio e exigente jornalista,  um escritor e ficcionista criativo e imaginativo, detentor de uma qualidade literária acima da média. Ainda recentemente viu isso reconhecido pela Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), que lhe atribui o prémio de melhor ficção narrativa de 2017.

No último mês esteve em Monção, numa iniciativa inserida no âmbito da apresentação dos seus dois últimos livros, e dialogar com os leitores e admiradores do seu trabalho.

A VALE MAIS aproveitou a ocasião para uma conversa. Foi num final de tarde soalheiro, algures numa varanda debruçada sobre a estância termal e o rio Minho que nos separa e enamora da Galiza.

ESCRITOR – JORNALISTA

Começamos, desde logo, por o provocar com o facto de se dizer, muitas vezes, que um bom jornalista dificilmente será bom escritor e vice-versa.

Rodrigo refutou a ideia. “Podia falar de dezenas de nomes… mas acho que Heminghway e García Márquez foram bons jornalistas e bons escritores. Oitenta por cento dos escritores que apreciam, as pessoas mal sabem que tiveram, de alguma forma, algo a ver com o jornalismo… penso que, no meu caso, as pessoas carregam muito na palavra jornalista porque o meu jornalismo é de exposição pública através da TV. Acho que se pode fazer bem, como se pode fazer mal, as duas coisas. Nenhuma influencia a outra, operam em campos não só diferentes, como, por vezes, diametralmente opostos. O jornalismo é essa caixa fechada da realidade onde tudo tem exatamente de ser o que é. A ficção é o oposto. É aquilo que eu quero que ela seja.”

Como escritor, foi já premiado por duas vezes!.

“Um de Jovens Talentos da ONU, aquando do primeiro livro, e, recentemente, um de peso, o da SPA. Que gostei muito de receber, é um prémio dos meus pares. É um orgulho, um reconhecimento do trabalho que fiz, mas tenho pleno consciência de que ele não me aquece, nem me arrefece, em muitos outros setores. Não me torno melhor escritor, não me sinto mais responsabilizado nas próximas obras só porque o ganhei. Quer-me parecer que, em termos de reconhecimento do público e da crítica, é um pouco irrelevante.

Agora, no sentido de reconhecimento do trabalho, obviamente que é importante para o amor próprio. Só isso!”

Como escritor, tudo se resume a duas palavras: amor e morte. É assim?

“São os dois únicos temas que há para escrever. De tudo que li na vida e gostei, dos escritores que me marcaram, quando se escava nas impurezas e o pó do resto da escrita, está-se a escrever sobre esse enorme mistério, que é o amor, e, ainda maior mistério, o medo da morte. Depois, as histórias variam.”

O Rodrigo-escritor é um leitor de pessoas e materializa, por via da escrita, os seus medos e ódios… mas leitor de pessoas é também uma função jornalística!?

“Sim, necessariamente. Mas não é uma condição sine qua non para se ser jornalista. Mas é para se ser ficcionista. Conheço muito bons jornalistas que não são grandes leitores de pessoas.

Eles tem é de ser leitores de factos; de os cruzar e, eventualmente, analisá-los e ir à procura de outros. Não quero dizer que, às vezes, estão a entrevistar uma pessoa e conseguem exatamente lê-la.”

Por outro lado, “acho que um ficcionista, um escritor que não saiba ler pessoas ou não tenha essa curiosidade… e ler pessoas, atenção, não é eu estar perante uma pessoa e transpô-la exatamente como ela é para um livro! É ver as suas incongruências, as suas fraquezas, as suas forças. Isso inspira-me para alguma narrativa Agora, sim, sou alguém que conhece uma pessoa e, imediatamente, a está a ler, a analisá-la. É uma coisa que nasceu comigo.”

CONHECER O FIM NO PRINCÍPIO

Rodrigo falou-nos também da metodologia que usa para construir os seus argumentos. Que lhe aparecem não sabe como, nem de onde vem.

“Uma das técnicas que tenho e trabalhei muito nestes dois últimos romances – e, penso, é assim que será no futuro – é que, ao contrário de muitos outros escritores, começo a escrever sabendo o fim. Sei por onde vou e isso ajuda imenso na construção da narrativa. O facto de se começar a escrever, sem saber para onde se vai, pode levar-nos a alguns devaneios e a curvas que não interessam para a história, nem para o leitor. Depois é a arte de manter o suspense, o interesse do leitor até que o consiga levar onde eu quero.”

Muitas pessoas se interrogam acerca do interregno que entre a publicação da primeira e segunda obra, “Daqui a Nada” a A Casa Quieta” (13 anos), e entre a quarta e quinta, “Canário” e “O Pianista de Hotel” (10 anos). O escritor explica.

“Foi uma coisa muito pragmática, não tem poesia. O primeiro interregno foi porque coincidiu com o arranque da SIC. Foi uma literal carga de trabalhos para o jovem jornalista, que eu e os meus colegas éramos. Estávamos a trabalhar pela nossa sobrevivência no mercado. O tempo voa e não dei conta.”

Já o 2º interregno “coincidiu com uma altura em que fiz parte da Direção da SIC e, portanto, isso aumentou imenso a minha carga de trabalhos. Não tinha o tempo físico ou mental para escrever. Assim que voltei a tê-lo, regressei à escrita. Tenho muito essa necessidade e, agora, espero que os interregnos sejam bastante menores. Não tenho nenhuma obrigação, nem perante mim, nem perante a editora, de publicar todos os anos. Nem quero. Mas sinto e sei que não voltarei a ter um interregno de 10 anos.”

ESCREVE DE MANHÃ

Qual é a altura do dia que se te revela mais produtiva?

“A manhã. Não tenho nada a figura poética do escritor boémio que escreve à noite com uma garrafa de uísque. Sempre fui uma pessoa muito matinal, desde criança, e isso continua em adulto. Depois, as próprias responsabilidades da vida obrigaram-me a levantar cedo e é a altura em que me sinto mais desperto. Quando sinto que estou em condições de começar o romance, estabeleço a mim próprio um autêntico horário de trabalho, como tenho no emprego, na SIC. Um mínimo de cinco horas diárias.”

No jornalismo, há tempos que têm de se cumprir, independentemente da disposição e fluidez. Na ficção, isso não se verifica.

“A ficção não tem nada a ver com jornalismo. O resultado dessas cinco horas diárias é sempre desigual. Há dias em que escrevo 10 páginas, de que me orgulho muito, e outros em que escrevo uma página e não gosto dela. A questão é que eu estou lá na cadeira, frente ao computador, com tempo disponível para o livro e, como dizem alguns escritores, para que a musa apareça. Escrevo em casa, no espaço que foi quarto do meu filho”.

LIVRO A FALAR DE FAKE NEWS

O jornalismo vive uma fase de profunda transformação, da rapidez na notícia, muitas vezes sem tempo para refletir se se trata de meros fait-divers, likes e redes sociais em que qualquer escreve o que entende, fake news e manipulações…. e redações desfalcadas.

“Há pouco estava a dizer-te que não sinto nenhuma necessidade de publicar todos os anos. Provavelmente, agora vou fazer uma pausa maior. Mas quando lancei ‘O Pianista de Hotel’, falei com a minha editora e disse que precisava de escrever já um livro. É este o que saiu agora, os ‘Jogos de Raiva’.”

“E precisava de o fazer já… porquê? Pela primeira vez, escrevi um livro completamente centrado na atualidade. Tudo isso que enumeraste é ali referido: fake news, pressa, audiências, redes sociais, likes. Está tudo concentrado nisso. Isto dava toda uma noite de conversa.

Para escrever o livro fui fazer alguma pesquisa e o jornalismo, na essência, não é muito diferente do que sempre foi. Nasceu para ter audiência. As pessoas gostam de o pintar de outra forma, mas é um negócio.”

Mas que tem de ter, também, uma função pedagógica? – atalhamos.

“Sim. Mas a premier press nasceu com os miúdos nas esquinas a agitar a gazeta onde estavam os pormenores do crime de Jack O Estripador. Não vamos entrar naquela coisa de que o jornalismo sempre foi uma atividade muito nobre e que hoje em dia é uma atividade sanguinária e virada para as audiências. Tem de as ter no sentido de ter que chegar às pessoas.”

ESPALHAR A MEDIOCRIDADE

Reconhece, porém que “o que lhes oferecemos pode estar a moldar gostos, a moldar sociedades ou gerações com um manto e espalhar de mediocridade que me assusta e pode ser perigoso no médio e, sobretudo, no longo prazo. Mas eu até atiro isso para outros campos. A maior parte das músicas que as rádios mainstream hoje difundem são o elogio da mediocridade. Há um certo espalhar de mediocridade que, depois, é potenciado e multiplicado pelas redes sociais onde pessoas medíocres espalham coisas medíocres. É assustador.”

“Cabe a cada um de nós, dentro do seu núcleo familiar e de amigos, tentar combater isso. Educar as nossas crianças a não se contentarem com a mediocridade, a procurarem as coisas belas, bonitas, de excelência, e que elas se juntem a outros miúdos que também façam a mesma coisa.”

Que futuro vê, então, para o jornalismo?

“Com preocupação. O jornalismo é uma mediação (não tem a ver com falta de objetividade) entre o acontecimento e o recetor. Aí tem uma função de alerta, pedagógica, de denúncia que faz parte inerente da raiz da profissão. O problema é que se está a assistir a um jornalismo que se está a demitir dessa função. Não pode ser, por exemplo, um órgão de comunicação que transmite um vídeo só porque apareceu no youtube. Sem qualquer tipo de mediação, contextualização.

Isso vai fazer com que qualquer dia, para o recetor, não haja qualquer diferença entre um trabalho jornalístico e o de um miúdo qualquer [ou manipulador] que põe uma coisa no youtube com o qual pretendia algum efeito. Esse é o meu medo.”

Rodrigo também escreveu para cinema e teatro, tendo familiares nestas áreas.

“O meu irmão Tiago sempre quis ser realizador e, depois, chegou àquela fase que todos chegam. Ele queria e tem talento. Mas precisa da história, do conteúdo, da escrita. Falou comigo para eu escrever o argumento. Este tem uma técnica muito particular, damos um corpo narrativo para que o realizador opere em cima dele, que faça a sua própria transformação. Portanto, quando me pus a escrever, aí, sim, tratei de estudar para o fazer de forma séria”

“Já a única peça de teatro foi um desafio da minha cunhada Isabel Abreu que é atriz e que m’a propôs. Escrevi-a para quatro personagens e chamou-se Os Pés no Arame”.

Por outro lado, também tentou entrar no campo da música, mas é o seu filho que, afinal, anda por lá.

“O meu filho não é baterista, toca bateria, quer continuar e ter algum futuro na música. Eu fui aluno de música muito antes de pensar em escrever ou ser jornalista. Tenho uma enorme paixão pela música, mas tive o azar de ter uma má professora que me afastou desse mundo…”

Quais são as suas referências?

“Não cabem aqui… gosto um pouco de tudo… sou capaz de ouvir, no mesmo dia, Led Zeppelin e Bach.”

Estamos no Alto Minho. O que conhece?

“Conheço melhor a zona costeira. Moledo, Caminha e Cerveira muito bem. Aqui no Minho, alugávamos casa na Apúlia, durante o verão, e fazíamos umas investidas a estas terras..”

NO NORTE ESTOU EM CASA

E, nesta região, que mais aprecia?

“Sinto-me muito bem. Estou fora do Porto; há 32 anos que vivo em Lisboa. Também acabei por construir uma casa no Alentejo. Mas tenho com o Norte uma relação muito boa e estranha. Cada vez que chego cá, sinto que há qualquer coisa, um cheiro e uma lua, a dizer-me que estou em casa. Vá para onde eu for, o Norte de Portugal estará sempre comigo. Aliás, neste último livro, a casa de família centrei-a no Porto.”

E já conhecia Monção?

“Não. Tinha bastante curiosidade… mas é exatamente a mesma sensação que tenho em qualquer parte do Norte.”

Quase a concluir.

“Fico muito contente pelo feedback que vou tendo do livro. Não sendo em grande quantidade, é muito especifico e apaixonado. As pessoas estão a gostar e muito. Falam-me da narrativa e, sobretudo, uma coisa que me agrada muito, com carinho das personagens, como se elas realmente existissem. Isso é a maior vitória para um ficcionista.”

Não tem medo das palavras?

“Não tenho medo, mas um grande respeito por elas. Gosto de usá-las. As certas no momento certo.” //

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