Mª FÁTIMA CABODEIRA ////////////// Roteiro de Outono

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Detenho-me nos prenúncios de outono, assim que os finais de tarde ficam mais frescos. Aguardo, com secreto prazer, a chegada da estação dos eternos recomeços e regressos. À escola, ao trabalho, e, fugazmente, à meninice que teimamos em preservar.

Imagino um vento quase infantil que enleva os campos férteis, as árvores e os montes. Castanhas, nozes, uvas, maçãs, figos… são tantos os frutos que brotam da azáfama das colheitas!

O outono não se manifesta apenas pela paleta de cores – que vai do amarelo ao castanho e ao vermelho, bem cristalizada nas recortadas folhas dos plátanos -, mas igualmente pelo odor. Do vinho novo adocicado, ainda quente a borbulhar; dos pomares maduros, que servem de repasto aos pássaros vigilantes, antes da grande viagem.

Pois é: por um lado assistimos à terra parturiente, por outro lado a mensagem dos elementos da natureza é já de recolhimento, como nos ensina a fábula de La Fontaine “A Formiga e a Cigarra”.

(Lembram-se dos castelos de madeira que fazíamos no quintal?, antecipando as agruras do inverno?).

Entrelaçando vivências e interesses pessoais, proponho-me aqui traçar um roteiro de outono para os meus leitores, que é, no fundo, um percurso sentimental, deambulando pelo Noroeste Peninsular.

Rodeados por paisagens bucólicas e águas de efeitos milagrosos, os Parques Termais de Melgaço, no Peso; de Monção (nas Caldas) e de Mondariz, na Galiza, são locais com história, de rara beleza, que merecem uma visita descontraída.

Em tempo de vindimas podem apreciar, na sub-região de Monção-Melgaço, os vinhedos da casta alvarinho, onde pontuam casas senhoriais e outros elementos arquitetónicos típicos do Alto Minho (eiras, espigueiros, cavalariças, bosques) visitáveis, como é o caso do Palácio da Brejoeira.

No que toca ao património ambiental, as Portas do Parque Nacional Peneda-Gerês, e de Corno de Bico, em Paredes de Coura, são espaços renovados, de lazer, a que subjaz uma componente didática, podendo ser frequentados por toda a família.

Construída sob os carris da antiga linha de caminho-de-ferro, a ecopista Valença-Monção permite fruir lentamente, a pé ou de bicicleta, a paisagem humanizada entre as duas margens do rio Minho. E é como se entrássemos na máquina do tempo: mosteiros, localidades de traça medieval, antigas zonas fabris e natureza em estado puro extasiam os sentidos.

Se descermos em direção à foz, sugiro que se apanhe o ferry-boat em Caminha e se suba até ao cume do Monte de Santa Tecla. Daí, a vista sobre o Minho e o oceano Atlântico, em dias de boa visibilidade, é uma experiência única e marcante; estremecimento só comparável ao que produz o promontório de Santa de Luzia, em Viana do Castelo, e se continuarmos pela Galiza acima, ao do Cabo de Finisterra e da Torre de Hércules, na Corunha.

Os amantes das locomotivas devem colecionar o percurso da Linha do Minho entre Viana do Castelo e Valença/Vigo, junto à orla costeira. As estações, com os seus painéis de azulejos que reproduzem cenas do quotidiano das localidades, e os antigos apeadeiros são edificações com inegável interesse histórico-cultural.

Por entre o património natural, construído, arqueológico, museológico e documental, há a – intangível – riqueza das gentes. Dos seus modos de ser e sentir. Partir à (re)descoberta destes territórios é (re)encontrar traços e laços de uma identidade comum. Sempre eloquente, ainda que sob o capote do silêncio.

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