SAGA DE GERAÇÕES RODADA EM MONÇÃO E MELGAÇO

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… E OS “CARBOEIROS” VOLTAM À SERRA

 “CARBOEIROS” é o título de um filme, com elementos históricos e outros ficcionados, que está a ser rodado, desde março último, nas zonas da Serra da Seida (Gave/Melgaço), Santo António do Vale do Poldros, Ponte de Mouro e vila de Monção. O enredo baseia-se na origem do clã dos carvoeiros, em Riba de Mouro, e que depois estendeu a sua atividade, através da sua descendência, por áreas dos concelhos de Monção, Melgaço (Castro Laboreiro) e Arcos de Valdevez (Soajo).

O monçanense João Capela, professor de audiovisuais, é o realizador da média metragem (70 minutos), também argumentista, com José Barreiros na produção, ambos coadjuvados por Alda Barreiros e Maria Alves. No mesmo pretende-se documentar a história do carvão, desde há séculos, e a vida dura dos que se dedicavam à sua produção e venda (inclusive para a vizinha Espanha, sobretudo durante os tempos da Guerra Civil, na década de 40 do séc. XX).

Mais de meia centena de atores, todos amadores e oriundos de Riba de Mouro participam em “CARBOEIROS”. Depois de concluídas as filmagens e respectiva edição, previsivelmente daqui a um ano, deverá estrear no Centro Cultural do Vale do Mouro (Tangil), devendo seguir-se outras salas, como a do Cineteatro João Verde, na vila de Monção. O objetivo é também marcar presença em alguns certames dedicados ao cinema.

VALE MAIS quis, desde já, “descobrir o véu” sobre “CARBOEIROS”. Para isso, esteve à fala com João Capela e, ainda, com o principal protagonista, Arlindo Alves.

 REALIZADOR EXPLICA PROJETO

Como e há quanto tempo surgiu a ideia dos “CARBOEIROS”?

Há mais de um ano que começamos a delinear o projeto. Entre investigação, entrevistas e contactos, foi-se formando a história que tinha como primeiro objetivo ser um documentário com testemunhos sobre os carvoeiros. Os carvoeiros eram um grupo de famílias que se dedicava ao fabrico e venda de carvão. Viviam nas aldeias de Cavenca, Gateira e Cruz Nova, na freguesia de  Riba de Mouro, e produziam o carvão na serra da Seida, que depois transportavam em burro e vendiam em Monção, Melgaço e Arcos de Valdevez e Espanha. Vida muito dura e trabalho pouco valorizado.

Já há muito tempo que queria filmar algo em Santo António de Vale de Poldros. As paisagens são deslumbrantes. Em conversa com o meu amigo Barreiros, produtor, ele falou-me dos carvoeiros e apresentou-me a Alda e a Maria, também membros da equipa de produção e investigação, e a ideia foi ganhando forma.

 Qual a sua formação e experiência em cinema?

A minha formação é bastante heterogénea. Venho da área do design e comunicação. Trabalhei nesta área e dei formação durante vários anos onde produzi e realizei, também, peças audiovisuais, sobretudo para publicidade ou propaganda. Também frequentei vários workshops na área do cinema, multimédia e audiovisual, além do curso de Novas Tecnologias da Comunicação, na Universidade de Aveiro, onde a formação para cinema e audiovisual têm um espaço bastante importante. Sou formador nas áreas da comunicação, fotografia, multimédia e audiovisual, desde há vários anos na ETAP – Escola Profissional, como responsável pelo curso Técnico de Audiovisuais.

Mas as minhas competências maiores vem da minha paixão pelo cinema, de algumas curtas que já realizei como hobbies e de uma enorme, sobretudo pela qualidade, e competente equipa técnica que me acompanha nesta aventura.

 Quais os passos que foram dados até se iniciar a rodagem? E as maiores dificuldades?

Como já referi, tendo como ponto de partida investigação já recolhida, quer pelo Barreiros, quer pela Alda e Maria, fomos entrevistando algumas testemunhas que se lembram desses tempos porque participaram ou testemunharam a vida dos carvoeiros. Gravámos esses testemunhos e, daquilo que era para ser um documentário assente nos testemunhos, começou a ganhar forma a ideia de dramatizar algumas partes. Na escrita das partes dramatizadas, começou a transparecer uma história que ganhava forma e enredo. Ora isso permitiria contar a história dos carvoeiros, baseada em testemunhos, mas assente numa narrativa com princípio, meio e fim. O documentário continua, mas a dramatização impôs-se quase como uma obrigação. Tudo isto implica muitos mais meios, sobretudo gente. Reunimos com a Associação Lá de Riba e a Junta de Freguesia de Riba de Mouro, que organizaram uma série de encontros com gente da freguesia. Partilhámos as nossas ideias. O apoio da Associação e de Junta de Freguesia foram, e são, totais. As pessoas aderiram sem qualquer hesitação. Quem não esteve mandou recado a dizer que queria participar.

 Que apoios foram conseguidos para levar avante o projeto?

Para já, todos, a nível da logística, são da Associação Lá de Riba e da Junta de Freguesia, para além das pessoas que participam no filme que também disponibilizaram mão de obra, viaturas, arranjo de caminhos, eletricidade, comida, vestuário, adereços. A ajuda tem sido inestimável e tudo em regime de voluntariado. Temos alguns apoios financeiros para garantir despesas como seguros, deslocações e outros. Estamos a fazer contactos para a angariação de apoios para a finalização e distribuição do filme. Contamos com os apoios, alguns já formalizados, de instituições, empresas da região e, até, particulares.

 Em que se baseia o argumento? Quem o escreveu e quanto tempo demorou? Quais as fontes consultadas? Muitas dificuldades em trabalhar na serra?

O argumento baseia-se na recolha do Barreiros, da Alda e da Maria e, sobretudo, nos testemunhos dos entrevistados. A parte dramatizada está assente nos relatos e entrevistas que fizemos. Há alguma efabulação, mas sempre assente no que nos foi contado. A escrita para cinema foi desenvolvida por mim, mas encontra-se ainda em aberto. Há cenas ainda por fechar. Há pormenores que ainda podem ser melhorados.

 Quantas pessoas estão envolvidas nas filmagens? De onde são e que escalão etário predomina? É possível, desde já, uma ficha técnica de CARBOEIROS?

 São quase uma centena de pessoas. Mas este número vai crescer. Há uma cena de uma festa em que precisamos de muitos figurantes. Na maior parte, são pessoas de Riba de Mouro. Na equipa técnica, para além de mim, como realizador e argumentista, temos, na produção o José Afonso Barreiros, além da Alda Barreiros e a Maria Alves que acumulam as funções de casting, guarda roupa e aderecistas, entre outras. Na direção de fotografia, temos o Patrick Alves Esteves, que também faz direção de actores. Como diretor de som, o Marco Lima. Na câmara, o Carlos Verde e Luís Lagadouro que acumula com assistente fotografia, efeitos e colorista. Na fotografia de cena o Rafael Peixoto. A música ficará a cargo do Ricardo Casaleiro. Temos também a participação de estagiários, finalistas dos cursos de audiovisuais da ETAP, Hugo Ribeiro, Ivan Sá, Fábio Cunha e Marcelo Malheiro.

Os atores são todos de Riba de Mouro.

Qual o orçamento do filme?

O orçamento ainda não está fechado, mas estima-se ser à volta de 40 a 50 mil euros. No entanto, grande parte destes apoios são dados em géneros. Empréstimo de material, viaturas, equipamento e a participação voluntária das próprias pessoas.

Ponto da situação nas rodagens? Quando vai estar concluído?

A rodagem começou pelas cenas mais difíceis que se passam na serra da Seida, a feitura do carvão e onde acontece também uma rixa entre os carvoeiros e um guarda florestal. Foram dois dias de trabalho na serra. Foi preciso arranjar caminhos e montar acampamento. A noite foi difícil com frio, muito vento e alguma chuva, mas ninguém arredou pé. Foi esgotante, mas ninguém se queixou. Voltamos lá para mais rodagens, mas desta vez só por um dia. Desta apanhámos um escaldão. As cenas rodadas são das mais difíceis em termos logísticos.

Prevemos que o filme esteja pronto lá para setembro de 2016.

Parece que o seu objetivo é continuar a filmar, ficcionando sobre temas da região. Como é?

Agora o objectivo é finalizar esta aventura e levá-la o mais longe possível. Depois, tenho outros projetos baseados no imaginário da região. Há histórias fabulosas, literalmente, para serem contadas. Algumas destas ideias têm mais de 20 anos. Há todo um manancial no Alto Minho que está por explorar. O caso dos “Carboeiros” é paradigmático. Se não fizéssemos este filme, provavelmente daqui a uns 10 ou 20 anos tudo estaria esquecido. Não encontramos registos escritos. Só nos valeram as testemunhas.

PROTAGONISTA NA PRIMEIRA EXPERIÊNCIA

Arlindo Alves, de 39 anos de idade, de Riba de Mouro, é o protagonista/ator principal.

Agricultor e criador de gado, conta à VALE MAIS que se trata da primeira experiência no campo do cinema, tendo os contactos iniciais surgido há dois anos, quando participou, já no papel de carvoeiro, num carro alegórico que desfilou durante as Festas do Corpo de Deus/Coca, na vila de Monção.

Trata-se, segundo nos disse, da sua primeira experiência como ator e reconhece que, às vezes, surgem dificuldades, nomeadamente, com o decorar dos textos. Porém, tem conseguido ultrapassá-las, acentuando, ainda, os conselhos que tem recebido, para o desempenho do seu papel, do “senhor Casimiro”, um antigo carvoeiro da freguesia e que, no filme, também encarna o papel de “pai” do Arlindo “carboeiro”.

Arlindo Alves manifesta, ainda, a sua satisfação com o papel que está a desempenhar em Carboeiros e considera ser “fácil” conciliar a sua atividade profissional com a participação no filme.

“É tudo combinado com antecedência. Não é difícil. Também decorrem, sobretudo, ao fim de semana, o que facilita” – garante-nos.

Confrontado com a hipótese de, após esta, surgirem outros convites para outros filmes, Arlindo Alves mostra-se, desde já, disponível para uma eventual participação.

1 COMENTÁRIO

  1. Quis Deus, o homem sonhou e o filme vai nascer….. Ontem eram poucos os que acreditavam, hoje são muitos e amanha serão todos. um cordial abraço a toda a equipa que esta a trabalhar para que este sonho e este projecto seja em breve realidade.

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