San Payo:: O maior artista da fotografia era de Melgaço

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San Payo:: O maior artista da fotografia era de Melgaço

Manuel Alves de San Payo foi um dos maiores mestres da fotografia do século XX. O aclamado escritor Ferreira de Castro considerou-o “o maior artista de fotografia em Portugal e em qualquer parte do mundo”. Era o fotógrafo preferido da elite da capital em meados do século passado, desde Oliveira Salazar a Humberto Delgado. Todavia, o seu nome está longe de ser devidamente conhecido na sua terra natal, Melgaço.

Começou por se chamar Manuel Joaquim Alves, mas, mais tarde, acabou por adotar o nome de Manuel Alves de San Payo, em jeito de homenagem à freguesia onde nasceu, S.Paio, e onde viriam a ser sepultados os seus restos mortais. Viveu entre 1890 e 1974.

TODO ELE É MOVIMENTO

“Quando trabalha, todo ele é movimento: ginasta, acrobata, saltador de obstáculos, enquanto os seus olhos de psicólogo surpreendem nos mais pequenos cambiantes nos nossos olhos e mais subtis expressões do nosso rosto. Tudo coroado por uma cabeleira boémia que parece agitada por um ciclone das Antilhas”, referia Ferreira de Castro nos idos anos 50 do séc. XX.

“Entre os anos de 1920 e 1950, Manuel Alves San Payo foi o melhor sucedido dos mestres fotógrafos portugueses. Pelo seu atelier passaram, então, as figuras mais notórias da vida nacional, gente de sociedade, políticos, artistas e intelectuais, que San Payo registou através sua espantosa qualidade de retratista, largamente divulgada pelas revistas e magazines”, realça Simonetta Luz Afonso, museóloga e gestora cultural, profunda conhecedora da sua obra.

Valter Alves, um melgacense que divide a sua paixão entre a geografia e o aprofundamento da história local, (e nos facultou alguns elementos para a elaboração deste trabalho) nota que San Payo “é uma personagem um bocadinho desconhecida em Melgaço, no seu lado artístico”.

San Payo:: O maior artista da fotografia era de Melgaço

Nota, porém, que há cerca de duas décadas decorreu, na vila mais a norte de Portugal, uma exposição sobre este seu ilustre que dali saiu, bastante novo, passou pelo seminário de Braga, foi para o Brasil (1909-1920) e regressou a Portugal, mas a Lisboa.

“Era aqui onde, profissionalmente, mais tempo passava. Vinha ocasionalmente a Melgaço, para visitar a terra e a família”, conta à VALE MAIS.

FAMILIA RECORDA-O

Rosalina Alves é sobrinha de San Payo e vive na vila de Melgaço. Sentada numa esplanada desta, fala à VALE MAIS com entusiasmo do seu tio de quem guarda memórias que ainda estão bem vivas.

“Era alto, forte e divertido. Tinha o cabelo alto, nunca o cortou à escovinha”, diz-nos, orgulhosa. Conta-nos mesmo que mandou construir uma casa antiga junto à dos pais, vinha cá passar férias com os seis filhos e filhas (só está viva a mais nova, que vive em Lisboa com os netos). “Após estes se casarem, as visitas passaram a ser mais raras”, observa.


AUTARQUIA PENSA EVENTO QUE DÊ NOTA DA GRANDEZA

Manoel Batista, o chefe do município melgacense, reconhece que não conhece, com detalhe, a vida e a obra de San Payo, como “seria bom que conhecesse”. Todavia, “pelo que já pude ler, sei que é um homem que em Lisboa se notabilizou pela sua capacidade artística na área da fotografia, que acompanhou como fotógrafo o ciclo político da altura e esteve ligado, tanto quanto sei, a vários momentos e a personalidades muito díspares.”

“Não poderemos encostá-lo nem a um lado, nem a outro do perfil da vida política da altura. Estávamos em período de ditadura, acompanhou os vários momentos políticos e as grandes personalidades da política do seu tempo.”

A Câmara Municipal promoveu uma exposição sobre a sua obra, por volta de 1995, na altura da inauguração da Casa da Cultura. “Teremos oportunidade, não tenho dúvidas, está na mente da Câmara, de fazer algum outro evento que dê nota da grandeza desta personalidade do San Payo que saiu de San Paio, aqui em Melgaço”, garantiu o autarca.


Sublinha, também, que o seu tio era uma pessoa extrovertida e amiga de toda a gente. “Quando alguém vinha lá a casa, era convidada para almoçar ou jantar. Estava sempre disponível para ajudar”, acrescentou.

Rosalina Alves garante que passou um tempo “bonito” com os primos. Recorda-se de vários episódios. Um deles tem a ver com um ninho de vespas num espigueiro.

“Secava-se o milho, malhava-se e guardava-se em arcas. Como o canastro ficava vazio, os meus primos iam para lá brincar e nós também. Um dia, tínhamos lá armada a casa das bonecas e vimos, numa trave do telhado do canastro, algo parecido com um grande abajur. Era feito por vespas. Tinha uns 20 cm de diâmetro. Era uma coisa tão bonita, tão bem feita, parecia uma tigela colada no teto e depois, redonda, tinha uma espécie de varandas (meias luas), tudo à volta, por onde entravam as vespas.”

“Fui contar ao meu pai. Estava cá também um tio meu, emigrante na Argentina, e o tio San Payo. Este tinha um espírito jovem. Pega numa cana e pica aquilo. As vespas saíram todas e uma picou o meu irmão. O tio Francisco fugiu com as mãos a tapar os ouvidos. O meu tio San Payo afastava-se e voltava para picar. Não tinha medo. Mas o meu pai assustou-se, eram umas vespas grandes e carregou uma caçadeira de pólvora seca, chegou lá e deu um tiro ao ninho. Este descolou-o e caiu inteirinho. Depois o meu tio San Payo quis saber como era por dentro. Com cuidado, retirou e encontrou o favo das vespas com as larvas.”

“O tio Francisco recuava com medo, mas o San Payo foi tirando as larvas e dizendo-lhe que era muito boas… Tirou o favo e guardou aquilo durante muito tempo (a parte de fora). Nunca tinha visto nada assim. Era muito bem feito” – observa.

Outra situação, diferente, tem a ver com uma situação aquando da Guerra Civil na vizinha Espanha e com um episódio à volta do apelido “San Payo” que oficializou no seu nome. Foi no Peso, quando efetuava uma viagem de autocarro, em visita à sua terra natal.

San Payo:: O maior artista da fotografia era de Melgaço

ESBOFETEADO PELA POLÍCIA

Num processo de identificação, um agente policial perguntou-lhe como se chamava e ele disse San Payo. Depois para onde ia. A mesma resposta. E de onde era natural. Também igual. “O polícia pensou que estava na brincadeira e deu-lhe uma bofetada. Levou-o para o posto. Aqui, o meu tio deu-lhe conta do seu nome na assinatura de quadros lá expostos com fotos de Salazar e Carmona. O polícia ficou ‘caído’. Depois, o tio seguiu até S. Paio e, quando chegou, pessoas da Câmara apareceram a pedir-lhe que esquecesse o caso.”

Rosalina Alves assinala: “Mas a madrinha do meu tio disse-lhe que não lhe perdoasse. Ele, todavia, respondeu que o fazia se na praça em frente ao edifício da Câmara, e perante várias pessoas, o polícia lhe deixasse dar duas bofetadas como aqueles que tinha recebido.  O polícia não quis. Ao chegar a Lisboa, fez a exposição ao ministro e o polícia deixou o posto”.

Rosalina Alves lembra também as idas de Humberto Delgado ao ateliê de seu tio e de levar a sua secretária, possuidora de bom sentido de humor, que o fazia rir. “Aquele era uma pessoa fechada e com ar sério”, sublinha.

San Payo:: O maior artista da fotografia era de Melgaço

CONDECORADO PELO PRESIDENTE DA REPÚBLICA

San Payo foi agraciado com o grau da Ordem de Santiago de Espada por Carmona, Presidente da República, e alvo de referências destacadas na imprensa nacional e internacional de então.

Além de fotógrafo consagrado e reconhecido ao mais alto nível, teve experiências como cinéfilo, conferencista e publicista, bem como nas artes plásticas. A sua atividade profissional trouxe-lhe conhecimentos e proximidade com as pessoas das elites políticas, sociais e artísticas.

“San Payo não foi um fotógrafo do regime. O regime é que foi seu cliente”, observam Vitória Mesquita e José Pessoa, num trabalho biográfico sobre o mesmo. Em diversas ocasiões de manifestou contra a repressão do regime e os seus métodos, bem como em defesa da sua Melgaço. A esse propósito, numa carta escrita, em 1963, ao então ministro das Obras Públicas, pedia “encarecidamente, como natural desse rincão a que estou ligado de alma e coração, o grande favor de a integrar novamente na Nação Portuguesa”.

De espírito aventureiro, tinha já 78 anos quando decide, sozinho, viajar pelas Américas. Um ano depois, dá aquela que seria a sua última entrevista, ao então Diário de Lisboa, intitulada “San Payo: 60 anos a tirar retratos”. No 25 de Abril de 1974, dia da “revolução dos cravos”, encontra-se já gravemente doente, mas alegra-se e exclama: “Finalmente, finalmente…”. Morre pouco depois, a 8 de maio, com 84 anos de idade.

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SABIA QUE

Em 1990, a família doa o seu espólio ao Arquivo Nacional de Fotografia, o qual se encarrega da sua conservação e restauro. Já esteve exposto, nomeadamente, no Museu do Chiado e na Casa de Cultura de Melgaço.


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