Sustentabilidade da Bienal de Cerveira está em causa

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Programa poderá ter de ser bastante reduzido

A Bienal mais antiga da Península Ibérica fica, outra vez, fora dos apoios estatais para as artes. O presidente da Fundação Bienal de Arte de Cerveira (FBAC), Fernando Nogueira, também presidente da Câmara Municipal, teme um futuro “muito escuro, para não dizer negro” desta evento internacional que, desde 1978, tem projetado a Vila das Artes. À VALE MAIS não deixou de manifestar a sua preocupação.

Manifestou recentemente a sua preocupação, temendo um “futuro muito escuro” para a bienal. Continua a temer? Porquê?

Continuamos a temer o futuro da Bienal Internacional de Arte de Cerveira, uma vez que está em causa a sustentabilidade financeira da instituição que a organiza, a Fundação Bienal de Arte de Cerveira. O apoio que temos obtido da administração central tem sido residual, tendo em conta o importante trabalho que desenvolvemos em prol da cultura e das artes a nível regional e, diríamos até, nacional e internacional.

Na bienal de 2018 foi a primeira vez que não se registou apoio estatal DG Artes? Para 2020, como Estado não apoia, quanto é que terá mais de colocar?

Em 2018, a Fundação Bienal de Arte de Cerveira candidatou-se ao Programa de Apoio Sustentado às Artes 2018-2021, Artes Visuais. A candidatura ao Apoio sustentado foi elegível, mas careceu de apoio financeiro por falta de verba. Posteriormente, em junho de 2018, apresentámos a candidatura “XX Bienal Internacional de Arte de Cerveira: das artes plásticas tradicionais às novas tecnologias”, no domínio “Apoio a Projetos – Programação e Desenvolvimento de Públicos”, que resultou num apoio financeiro de 40 mil euros. 

No ano passado, obtivemos ainda o apoio para a candidatura “Fundação Bienal de Arte de Cerveira: the Collection on the road”, no programa de Internacionalização 2018, que envolveu a realização de uma exposição em San Sperate (Sardenha, Itália), uma conferência sobre arte contemporânea portuguesa e um programa de visitas guiadas, maioritariamente destinado a públicos em idade escolar. O projeto foi apoiado no valor de 12.790 euros.

Não obstante, estes apoios têm sido pontuais e não se traduziram no apoio continuado que consideramos que mereceríamos obter, tendo em conta o programa anual de atividades que desenvolvemos.

Para a XXI Bienal Internacional de Arte de Cerveira (2020), não havendo comparticipação do Estado, o programa terá de ser substancialmente reduzido, uma vez que, no orçamento municipal, estão consignados 170 mil euros para a Fundação Bienal de Arte de Cerveira, verba manifestamente insuficiente para que se possa organizar esta edição da Bienal. A concretizar-se a falta de apoio, terá a autarquia de fazer um esforço para suportar o diferencial. Esta situação não poderá prolongar-se indefinidamente, uma vez que os recursos da autarquia são escassos e fundamentais para investimentos noutras áreas.

A que, acha, se deve esta atitude da DG Artes perante um evento como a da mais antiga bienal da Península Ibérica; e foram 177 candidaturas elegíveis a receber apoios?

Consideramos que se continuam a centralizar os apoios na capital, como se verificava antes do 25 de abril. Apesar de, como refere, terem sido elegíveis 177 candidaturas, no concurso das Artes Visuais ao qual concorremos, apenas foram aprovadas três candidaturas e as três destinam-se para a área de Lisboa. 

O facto da Bienal ter o Museu do Ano não vale para nada?

A distinção de Melhor Museu Português de 2019, atribuído pela Associação Portuguesa de Museologia (APOM), veio reconhecer o trabalho que se tem desenvolvido em Vila Nova de Cerveira há 40 anos. Atualmente, cabe à Fundação Bienal de Arte de Cerveira dar continuidade a este legado e esta distinção veio sublinhar o seu papel de entidade legitimadora no panorama cultural e artístico.

Esta distinção é elucidativa do trabalho de excelência que temos vindo a desenvolver e sem apoios diretos do Estado, com muito esforço de uma pequena equipa, da autarquia, dos fundadores, dos artistas e também dos próprios cerveirenses. 

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CIM E DEPUTADOS PREOCUPADOS

Já José Maria Costa, presidente da CIM Alto Minho e da Câmara de Viana do Castelo, em declarações públicas, referiu ter sido com “estupefação” a decisão “incompreensível” da Direção-Geral das Artes (DGArtes) de não financiar a bienal de arte de Vila Nova de Cerveira. “Esta decisão prejudica a programação da mais antiga bienal da Península Ibérica e de Portugal, mas lesa também uma afirmação cultural descentralizada e fora da capital do país”, afirmou.

A candidatura da bienal de Cerveira é uma das cinco que foram consideradas elegíveis para apoio pelo júri, mas para as quais não há financiamento disponível. São “decisões destas que prejudicam a coesão territorial e aprofundam as fraturas culturais” no país, afiança o líder da CIM Alto Minho.

“O esforço para manter eventos culturais de qualidade fora da capital são muito maiores, pois não beneficiam da cobertura dos órgãos de comunicação social da capital, não beneficiam dos mecenas da capital, nem das elites da capital”, sublinhou, adiantando que “decisões como estas de administrações centralizadas empobrecem culturalmente o país”.

“A solidariedade dos municípios do Alto Minho e dos agentes económicos da região vão, estou certo, apoiar a Bienal de Cerveira”, afiançou.

Por sua vez, os deputados do PS eleitos por Viana do Castelo questionaram a ministra da Cultura, Graça Fonseca, sobre a não atribuição de financiamento à candidatura da bienal internacional de arte de Vila Nova de Cerveira.

No requerimento enviado à ministra, os deputados Marina Gonçalves, Anabela Rodrigues e José Manuel Carpinteira, perguntam “se existe margem para a reapreciação da continuidade do apoio da DGArtes aquele projeto cultural de excelência para a vila das artes, para o distrito, mas também para a promoção cultural do nosso país”.

“A Bienal Internacional de Cerveira, que conta com mais de 40 anos de história e com 20 edições já realizadas, é indiscutivelmente um dos grandes acontecimentos do nosso país e uma referência para a cultura artística nacional”, argumentam os parlamentares eleitos pelo Alto Minho.

Estes lembram, a propósito, que “artistas de renome expuseram a sua arte em Vila Nova Cerveira, ao mesmo tempo que esta deu oportunidade a novos artistas para promoverem as suas criações”.

“Tendo a fundação Bienal Arte de Cerveira ficado entre as candidaturas elegíveis para apoio, mas para as quais não há financiamento disponível, é importante conhecer os motivos pelos quais se priorizou o financiamento de outros projetos, em detrimento de um projeto que valoriza o Alto Minho, dignifica o setor e permite dar continuidade a um trabalho de excelência reconhecido nacional e internacionalmente”, reforçam os deputados no requerimento enviado à tutela.

Também o grupo parlamentar do Bloco de Esquerda, através, das deputadas Beatriz Gomes Dias e Alexandra Vieira, questionaram o ministério da Cultura, se acham importante a Bienal de Cerveira e se vai o governo corrigir o subfinanciamento dos apoios às artes garantindo o financiamento de todas as candidaturas consideradas elegíveis para apoio da direção-geral das artes para o biénio 2020/21.

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