Um “novo cunho” para o Centro Histórico de Cerveira

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Um “novo cunho” para o Centro Histórico de Cerveira

Vila Nova de Cerveira decidiu integrar a Associação Portuguesa dos Municípios com Centro Histórico (APMCH). A decisão unânime do executivo camarário deverá ser ratificada, a 13 deste mês de dezembro, pela Assembleia Municipal.

A adesão à APMVCH visa “potenciar a defesa, valorização, revitalização e animação” do centro histórico de Vila Nova de Cerveira, “que remonta ao século XIV, com a entrega da Carta de Foral de D. Dinis em 1321 (há 698 anos) e constituído por relevantes elementos patrimoniais”.

“Sob proteção do Castelo D. Dinis surgiu, no século XIV, o pequeno burgo que corresponde hoje ao centro histórico, demarcando-se um novo paradigma na história dos cerveirenses e, sobretudo, da sua identidade. Aqui, a história e o património andam de mãos dadas, com diversos edifícios com influência de diferentes estilos arquitetónicos e épocas, que convidam a um roteiro histórico-patrimonial, mas também artístico-cultural”, observa o município cerveirense.

“O núcleo urbano histórico de Vila Nova de Cerveira é enaltecido pela existência de uma harmonização entre o valioso legado e as marcas que alguns dos mais importantes episódios da história nacional deixaram, com as modernas intervenções urbanísticas e artísticas”, considera a autarquia.

Fundada por 15 câmaras em 1988, a APMCH, com sede em Lamego, possui cerca de uma centena de concelhos e reúne “municípios portugueses que possuam, nos seus aglomerados urbanos, zonas antigas merecedoras de preservação”.

Do Alto Minho, integram a APMCH os concelhos de Viana do Castelo, Ponte de Lima, Caminha, Valença, Arcos de Valdevez, Melgaço e Ponte da Barca.

A APMCH visa, entre outros objetivos, “promover, em conjunto ou isoladamente, todas as ações, com vista à defesa, conservação, recuperação, reabilitação, revitalização e animação desses centros históricos, considerando-as zonas carecidas de proteção prioritária, como valores que são da maior importância nacional e de indiscutível interesse público e, principalmente, como fatores determinantes para o progresso e bem-estar das populações que deles desfrutam ou usufruem”.

Um “novo cunho” para o Centro Histórico de Cerveira

UMA VISITA  CICERONEADA

A VALE MAIS andou pelo centro histórico de V. N. Cerveira, tendo como cicerone Nuno Correia, antropólogo, chefe da divisão sócio-cultural da autarquia municipal, onde está há cerca de duas década, e que tem devotado muito do seu tempo ao estudo da história local

A visita começou pelo Castelo, mandado construir por D. Dinis há 700 anos, à semelhança do que fez com outras localidades situadas em zonas de fronteira. Até então, V.N. Cerveira era apenas um aglomerado de pessoas, embora a sua ocupação remonte já à pré-história, conforme salientou o estudioso.

A carta de foral outorgada em 1321 – em que era reconhecido o conceito de concelho – tinha como objetivo não só proteger a entrada de espanhóis através do curso do rio Minho, mas também era intenção de que houvesse uma fixação de povoação, ou seja, criada e fixada uma comunidade populacional. Com esse objetivo, a carta previa um conjunto de benefícios, ao nível dos impostos.

A partir daí, Cerveira começa a desenvolver-se como núcleo urbano. A carta de foral previu a constituição de três importantes tipos de poder: religioso, a parte militar e administrativa; e o do desenvolvimento comercial da época.

“No âmbito do poder administrativo e militar é instituída em V N Cerveira a figura do alcaide. Quando o rei D Dinis mandou construir o castelo, foi com a intenção de que este albergasse não só população, mas também militares, que seriam para proteger e defender parte do território nacional, e o poder religioso”, explica-nos Nuno Correia.

Vários elementos associados surgiram então. Desde logo a Casa do Alcaide (presidente da Câmara), o Pelourinho (símbolo do poder judicial e administrativo), Igreja da Misericórdia, Cadeia, Balcão virado ao rio Minho e Capela da Senhora da Ajuda, os mais representativos elementos que encontramos dentro do Castelo. Também aqui se situa a cisterna cuja finalidade era aproveitar a água das chuvas (não tem ligação ao rio), aquando dos cercos militares.

Todos estes elementos se encontram em estado de conservação bastante razoável. “Tenho verificado em tantos núcleos ou centros históricos, até mesmo fortalezas ou castelos, a existência de um índice de degradação muito maior”, observa o nosso cicerone, notando, porém, que, em termos arqueológicos, há alguma preocupação relativamente a algumas deficiências que as próprias muralhas já começam a apresentar que “não são muito preocupantes”.

Um “novo cunho” para o Centro Histórico de Cerveira

MÍNIMO DE 100 HABITANTES

Paralelamente, surgiu um pano de muralhas a circundar todo o núcleo habitacional intramuralhas. “A carta de foral diz que tem de ter o mínimo de 100 habitantes. Todavia, Cerveira tem um crescimento e um desenvolvimento rápido. Aqui (dentro do Castelo) não cabiam muitas pessoas. Havia uma outra muralha defensiva que não está visível porque a população teve de crescer. E ela não podia crescer dentro da zona da 1ª muralha. Já não é possível ver, mas temos o caminho da Barbacã, que está a pouca distância da primeira”. 

Mais tarde, já no séc XVII, quando terminou o período filipino em Portugal, surgiu uma 3ª muralha. Já não existe, até devido à expansão da urbe, nomeadamente, com a passagem dos caminhos de ferro e da estrada nacional. 

EXTERIOR AO CASTELO

“Se lá dentro tínhamos o poder militar, administrativo e, também, o religioso, aqui onde agora estamos, na praça central da vila (a que chamamos, hoje, Terreiro), temos a Igreja Matriz”, observa o nosso interlocutor, notando que este era, já então, o ponto de encontro da população e onde decorriam as feiras medievais.

Ali na zona do Terreiro também se situa a CASA VERDE, construída no séc XVIII por emigrantes do Brasil e propriedade privada, o monumento A MEMÓRIA (homenagem aos soldados que faleceram durante as invasões francesas), e o SOLAR DOS CASTROS (onde funciona a Biblioteca Municipal).

Percorremos, ainda, as ruas Queiroz Ribeiro e César Maldonado, artérias que são praticamente medievais. “Como todos os núcleos populacionais, Cerveira foi crescendo e, evidentemente, as pessoas começaram a construir as suas casas fora da fortaleza”. 

Na última daquelas artérias (a César Maldonado) situa-se um “edifício bastante curioso”, uma antiga habitação senhorial, julga-se do séc XVIII, que tem um estilo neoclássico e que já teve várias utilizações. Foi hospital da Misericórdia, como apoio ao caminho dos peregrinos, depois instalações da GNR, atualmente a escola ETAP, como as “reconstruções e adaptações ao fim a que se destinou”. 

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DINAMIZAÇÃO

Nuno Correia considera, porém, que a revitalização, dinamização, animação e requalificação do centro histórico não é uma coisa que só vai arrancar agora que a Câmara adere à APMCH. 

“É uma coisa que tem decorrido e que está à vista de todas as pessoas. Grande parte das iniciativas culturais decorrem, curiosamente, na zona do centro histórico. Há todo um trabalho de requalificação, dinamização e atratividade desenvolvido. Que pretende o executivo com esta adesão a esta associação? Dar uma ênfase distinta, um novo cunho, a todo o processo de dinamização do seu centro histórico. À semelhança do que têm feito outros concelhos”, refere. 

ROTEIROS

A pedido da VALE MAIS, Nuno Correia deixa duas sugestões de roteiro para percorrer o centro histórico.

“Por um lado, um roteiro patrimonial. Por outro, um artístico. Pese embora exista uma simbiose e uma perfeita adequação e articulação entre a colocação escultórica que existe de arte, resultado das bienais de arte internacionais, penso que as pessoas têm de conseguir perceber ou interiorizar que existem perspetivas e conceitos distintos”, considera.

Exemplificando: “Por um lado, neste roteiro patrimonial, existe um conjunto de pontos fundamentais para que possam conhecer melhor o centro histórico. Na minha perspetiva, essa viagem deve começar sempre pelo próprio Castelo de Cerveira, a génese onde se inicia esta história medieval; por outro lado, num sentido mais contemporâneo, fazer um roteiro artístico junta das imensas esculturas que, se calhar, as pessoas, que por aqui passam, já nem sequer conseguem perceber que elas já fazem parte desta ambiência.”

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APOGEU DE CERVEIRA

Instado sobre os períodos de maior apogeu da história do burgo, Nuno Correia hesitou, mas acabou por citar alguns “e, certamente, há outros que não ficam registados”.

O primeiro momento, importante para Cerveira e o seu centro histórico, é a atribuição da carta de foral de D. Dinis e a sua intenção de mandar construir o Castelo.

Outro momento preponderante foram “as invasões francesas e o papel que V.N. Cerveira teve em não permitir que as tropas francesas de Soult entrassem por Cerveira”.

Mais recentemente, todo este desenvolvimento harmonioso que existe entre o conceito de Vila das Artes e o respeito que este tem pelo património existente.

HOTEL DE QUATRO ESTRELAS

Entretanto, foi anunciado que o castelo de Vila Nova de Cerveira deverá reabrir portas em 2021, transformado em hotel de quatro estrelas, num investimento privado estimado em cerca de três milhões de euros.

A integração na associação dos municípios com centro histórico e o desenvolvimento harmonioso, acrescido com este facto, são uma mais valia para V. N. Cerveira.

O futuro, como prevê o nosso cicerone, poder-se-á traduzir em desenvolvimento turístico, como consequência do histórico. “Acaba por ser extremamente relevante que o Castelo seja recuperado para uma funcionalidade própria. Sobretudo para uma que está em constante desenvolvimento como é o turismo”, observa.

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Barbacã de Porta: O castelo no seu todo não é obra de um único momento pelo que foi sendo melhorado em termos de eficácia militar. Um dos exemplos é a barbaca de porta, onde ao ser construída uma segunda linha de muralha mais baixa, se criava um percurso sinuoso de acesso, em cotovelo. O objetivo era retardar qualquer investida que fosse feita, mesmo a cavalo, fazendo com que o exército atacante ficasse retido entre portas e exposto a tiro das muralhas e ambas as torres.

Casa da Câmara: Um dos principais símbolos de poder do concelho, instituído pela carta de foral. Desta relação com o poder régio destaca-se a coroa real sobre a porta principal do edifício. A gestão da vida concelhia fez- se neste local até aos inícios do séc. XX, sendo que o edifício contíguo era a antiga cadeia. 

Pelourinho: Símbolo do poder administrativo e judicial. Aqui eram lidos os anúncios à população e as sentenças dos crimes. Também aplicadas algumas penas, como os acoites. Para a forca, localizada no exterior da vila, eram levados os criminosos para a aplicação de penas capitais.

Igreja da Misericórdia: Construída em várias fazes, sendo que a mais recente corresponde ao corpo principal e data já de 1811. Desde o séc. XV que esta instituição vinha a desempenhar um papel cada vez mais relevante, principalmente no que toca à caridade e assistência a mendigos, viajantes e peregrinos, tendo chegado mesmo a ter um hospital, inicialmente dentro das muralhas do castelo. A construção deste templo tem inicio com o achamento miraculoso da imagem do Sr. ECCE Homo, que ainda hoje podemos admirar no topo do altar lateral. A profunda devoção desta imagem faria com que o templo fosse crescendo. A parte mais antiga corresponde á sacristia.

Porta da Traição: é um dos elementos originais do castelo. Trata- se de uma porta de pequenas dimensões, colocada em local discreto e de difícil acesso. A sua missão não era mais que permitir um ponto de fuga para que alguém pudesse buscar ajuda no caso de cerco. 

Balcão: voltado ao rio: construído mais tardiamente, já durante as guerras da restauração, tinha por missão bater a tiro de canhão a fronteira fortaleza de Goian e a passagem do rio, que neste local é fácil. Este facto vez com que durante as invasões francesas e o general Soult tentar atravessar aqui.

Capela da Sra. da Ajuda: Construída perto de 1650 pela guarnição militar do castelo, a par da constituição da confraria da mesma invocação.

Largo do Terreiro: qualquer aglomerado urbano desenvolveu-se em torno de três polos. O religioso, sendo a igreja ponto essencial de referência e encontro da comunidade. O comercial: a praça onde decorria a feira, que durante toda a idade média foi o principal polo de atividade económica, e, neste caso, o Largo do Terreiro. O militar e administrativo, com o Castelo, albergava as principais instituições da época, que administravam e defendiam a vila. Foi com base nestes três polos e ao longo da estrada que ligava Valença a Viana do Castelo, que V. N. Cerveira se desenvolveu. Dentro desta lógica o Largo do Terreiro acabaria por se tornar na Praça central da urbe. 

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