UM “REINO MARAVILHOSO” EM TERRAS DO “FORUM LIMICORUM”

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Torga escreveu um dia, de forma límpida e inimitável, que “embora haja muita gente que diz que não, sempre houve e haverá reinos maravilhosos neste mundo”. E apresentou-nos, através de um retrato exímio, generoso e comovente, o seu “reino maravilhoso”: a sua misteriosa terra transmontana, com quem Torga viveu uma constante paixão.

Torga adorava ver o seu “reino” vestido de tons de pérola fundida, essa cor amena que suaviza a luz e que lhe é dada pelos sumptuosos maciços graníticos, os milenares penhascos roídos pelo tempo ― o “mar de pedra”, como lhe chamou ―  e que matizam, de forma altiva e intimidante, as majestosas e infindáveis encostas escarpadas das montanhas, bem patentes na romanesca e esmagadora paisagem de Cabril.

Torga indicou-nos o caminho para os “reinos maravilhosos”, destacando que “o que é preciso, para os ver, é que os olhos não percam a virgindade original diante da realidade, e o coração, depois, não hesite”.

Mais de meio século depois das palavras ditas por Torga, ainda existirão “reinos maravilhosos”? Talvez sim, ou talvez não! Isso cabe a cada um de nós descobrir!…

UM “REINO” CELEBRADO POR ANTÓNIO FEIJÓ

Nós apresentamos um outro “reino”, o nosso “Forum Limicorum” ― aquele que foi celebrado de forma épica e enternecedora por António Feijó ―, povoado mágico e cheio de surpreendentes encantos, fundado sob a autoridade de Roma, o qual, ao contrário do “reino” de Torga, abre-se ao mundo, desde Ginzo de Limia até Viana, em admirável apoteose, vaidoso e jovial, com uma paleta de mil cores, onde ressalta o verde exuberante dos salgueiros, dos amieiros, dos plátanos e dos milheirais, o amarelo garrido do pampilho, o vermelho cintilante das papoilas e o lilás inebriante da soagem e da urze.

No âmago desse “reino” ― Ponte de Lima ― existe um povo, um povo antigo ― os Límios ―, o qual, desde tempos que se diluem na sombra da memória, circundado e seduzido pelo altíssimo fulgor e pela beleza da paisagem ímpar e voluptuosa, esculpida pelo homem e pela natureza no regaço do vale imenso e bucólico e nas suas margens festivas, vive deslumbrado pela grandiosidade das suas tradições, pelo seu idílico rio, essa seiva cristalina da natureza, de seu nome “Lima”, mas também pelas suas magnificentes pontes ― a romana e a medieval.

Essas pontes, baluartes patrióticos erigidos na paisagem exuberante pelo poder dos génios, apresentam-se, ainda hoje, com o seu ar primitivo, onde sobressai o granito secular cinzelado pelas mãos ágeis e talentosas dos sábios e laboriosos “artífices-canteiros” da nossa terra e lustradas, para nosso encanto, por musgo de tons de prata polida.

Este virtuoso e afável povo “Limiano” desenvolveu um soberano “sentimento de comunidade”, para o qual procurámos, no âmbito da “antropologia cultural”, um “quadro concetual” que o sustente.

Lemos e revemos bibliografia específica e concluímos que o melhor “modelo teórico”, explicativo desta original “identidade limiana” e deste fascinante “espírito de um povo”, é-nos revelado pelo sociólogo norte-americano Robert MacIver e que, em resumo, tem como pano de fundo três grandes pilares: o “sentimento do “nós”, o “sentimento de representação de um papel” e o “sentimento de dependência”.

Em Ponte de Lima todos esses “sentimentos” se fundem num fulgor misterioso, mas há um que se eleva, numa auréola de grandeza, qual torre de menagem altaneira: o “sentimento do “nós” ― o “limianismo”, como aqui lhe chamam.

Neste “reino maravilhoso” há um mundo encantado, quase sobrenatural, que primeiro seduz e que depois se entranha ― de forma imortal ― naqueles que cruzam as “terras de Ponte”!

Um “reino” digno dos deuses!

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