Maria Fátima Carbodeira | Um sorriso contra a crise

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O tema tem sido recorrente, dominante e entediante, pelo menos desde que o capitalismo deu mostras explícitas de instabilidade, a partir dos Estados Unidos da América. Lembram-se de como, aparentemente, tudo começou com o escândalo financeiro do Lehman Brothers?

A Europa tremeu, e dentro dela os países considerados mais frágeis do ponto de vista económico, como é o caso de Portugal. Não é a primeira vez que a Troika entra no nosso país, desde o 25 de Abril de 1974…

Contudo, a crise foi-nos apresentada como uma nuvem negra a pairar sobre os nossos destinos. E, de supetão, quase engoliu qualquer réstia de esperança que pudesse existir à face da terra.

Os hábitos de vida dos portugueses mudaram bruscamente por força do contexto social e político reinante. A imprensa (leia-se o termo em sentido lato) refletiu essa onda de pessimismo e, durante um longo período, foi questionando não só os decisores políticos como a população em geral sobre o que fazer para vencer tão temível adversário. Era aqui que eu queria chegar.

Confrontada com a panaceia a adotar, uma mulher de meia-idade respondeu, perentoriamente, o seguinte: “eu ofereço o meu sorriso”. Numa peça televisiva curta, transmitida em horário nobre, fiquei logo presa ao sentido mais profundo daquela frase, que tem tanto de desconcertante quanto de poético.

Não estava, certamente, a referir-se ao secular e enigmático sorriso da “Mona Lisa”, que hordas de turistas visitam, sofregamente, no Museu do Louvre. Referia-se antes a uma forma de relacionamento interpessoal que pressupõe a alteridade, ou seja a inclusão do outro, dos outros.

Numa sociedade cada vez mais individualista e competitiva, aquela mulher falava – num discurso que eu inferi, para lá da dimensão do que foi dito -, da humanização enquanto forma de vencer os obstáculos.

Oferecer um sorriso, depreendo, significar naquele contexto, ser inteiro e genuíno, e a partir dessa base construir o que se quiser.

Temido durante séculos, por receio de dessacralizar a realidade, o riso é um elemento abrupto e, como tal, intruso, no processo de comunicação, podendo gerar incompreensões – daí a desconfiança que o humor sempre gera. “O Nome da Rosa”, de Umberto Eco, recria magistralmente essa temática.

Indiferente a idiomas e contextos circunstanciais, já o sorriso é uma espécie de breve enleio; um modo de reconhecimento subterrâneo, que se estabelece entre os sujeitos, e que eu traduziria por encontro. “Creio que foi o sorriso,/o sorriso foi quem abriu a porta.”, escreve Eugénio de Andrade no poema “O Sorriso”…

No meio de tantas banalidades com que diariamente somos bombardeados, surgem por vezes, de onde menos se espera, pequenos fachos de luz que nos fazem desacelerar e compreender o mundo. Se soubermos ver e ouvir, claro está.

Cada um é livre de adotar a sua estratégia. Mas eu estou em crer que a autenticidade possui uma energia transformadora, capaz de iluminar a crepuscular incerteza dos nossos dias.

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