Uma Fonte sedenta de Memória

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Uma Fonte sedenta de Memória

“recordo aquela noite, / quando mamá chorando …, / bicándonos e dicíndonos … / tranquilas, tranquilas neniñas … / … e saiu chorando!, / e non a miramos máis, / igual que a papá, / mirámolos na sepultura! / recordo, recordo… !”

(Herdeiras – Carmen Penim)

Ali, na Curva  de  Fontaboa, coração do Val do Límia, na beira da estrada, aconteceu uma jornada única, recheada de afectos regados a lágrimas e sangue, de sentimentos únicos, de memórias resgatadas do esquecimento. Éramos três ou quatro portugueses e uma cesta cheia de cravos de Abril . . . Havia emoção no ar. 

Havia um menir soberbo, tapado por um pano sangue vivo, tal  grito contido em conjunto que iria respirar brevemente para que nunca se esqueçam os irmãos do infortúnio. Havia um palco e dez ou vinte cadeiras. Havia uma corga a murmurar por ali. E nesse regato foram assassinados homens, jovens e inocentes. 

E a Fontaboa, de lágrimas, ia limpando a sangria. Falar do que se passou em Espanha nessa época é bastante doloroso. Por quem os sinos dobram, sentiu-o o senhor Hemingway com alguma ficção. O Grande Senhor Neruda, irmão de Garcia Lorca, trazia o coração a sangrar por Espanha . . . E Espanha entregue inocente à barbárie e à bicharada . . . E quem tentou respirar e ousar resistir, a muitas outras fontes foram parar . . . para que a água dos montes fizesse o milagre do esquecimento. – Não enterraram cadáveres!!! Plantaram sementes!!! Foi a palavra sentida durante um discurso visceral carregado de poesia. 

A enorme Espanha quer esquecer . . . Que isto nunca aconteceu . . . mas o ser humano é um bosque que se liga por raízes e sangue e se lhe sugarem o sangue  mas  não lhe cortarem a raiz a alma germina. 

O ser humano é também um enorme mar quando junta o ideal e se transforma em maré viva; o grito sai da terra. E fica ali, esculpido no granito, cada ser, cada pessoa a voltar por momentos fugazes ao reino dos vivos, a ser lembrado, festejado e aplaudido pelos seus entes queridos que nunca os esqueceram. 

Um foguete por memória soava como um tiro na consciência de quem os matou. Pela minha parte, e pelos cravos vermelhos, dei comigo  a sentir-me noutro 25 de Abril. Estava em casa. E outro discurso fez lembrar que o Salgueiro Maia fez a revolução sem um fio de sangue, apenas o sangue poético das flores vermelhas . . . 

Depois outro discurso a lembrar que as primeiras unidades guerrilheiras contra o fascismo tinham base em Castro Laboreiro. E eu aqui perdido no meio da História, da raia fronteiriça,  a tentar entender, de emoção em emoção. A parte poética e musical foi soberba. Todo um sentimento vivo de unidade e força, de qualidade e entrega que este 14 de Setembro bem mereceu. 

Os familiares das vítimas foram depois convidados a retirar da pedra enorme o pano que tapava o grito dos esquecidos. Foi o momento dos momentos. Foi cantado e tocado o Hino Nacional da Galiza. Quando a rocha ficou nua, apenas os nomes a saltarem para o espaço, começaram a voar cravos de todas as direcções a cair aos pés da verdade!!! Até as crianças cantavam . . .

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