VALE MAIS VISITOU LOCAIS POR ONDE AS CHAMAS ANDARAM

MONÇÃO

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Casa que foi rodeada pelas chamas. À volta, tudo ardeu. Situa-se entre Merufe e Longos Vales

O cenário é desolador! Dizem-nos, os mais velhos, nunca visto por estas bandas. A VALE MAIS percorreu hoje áreas ardidas do concelho de Monção – foram 4300 hectares e não os 6 mil inicialmente apontados pela autarquia – e viu quilómetros e quilómetros de terra queimada, restos de ‘canhotos’ ainda a fumegar (apesar da chuva), edifícios de que restam as paredes e pouco mais.

De tudo o que vimos e das conversas que fomos tendo com quem falamos, avulta a ideia de que a preocupação quase exclusiva foi o de proteger as habitações das chamas que andaram descontroladas. Em muitos hectares de terreno, as casas são “ilhas” no meio da paisagem cujo verde o “inferno” devorou. Por outro lado, nas contribuições para as proporções do sinistro, o vento forte predominante do sul foi determinante. Não fosse este e tudo seria menos dificilmente controlável.

Na Bela, Manuel Domingues, que sempre ali viveu durante os 68 anos de vida, que nunca viu situação assim. A área em volta da casa que o filho está a construir ardeu e, com o calor, os vidros já colocados no rés do chão “estoiraram”. Ainda teve tempo, todavia, para regar o terreno e, assim, dar-lhe alguma proteção. Ao lado, eucaliptos e vegetação arderam. A sua residência, mais no interior da aldeia, também mereceu vigilância, mas, por estar junto a outras, sentiu-a mais protegida. O fogo também não poupou a área mais junto ao rio, apesar de ali não existir grande floresta…. e, pela primeira vez, passou para Espanha.

No trajeto por Barbeita e Merufe,  a maior parte da paisagem ardida é, apenas, “recortada” pelo espaço junto às habitações. Em Barbeita, o “icónico” monte da Assunção ardeu… literalmente. No sopé, uma carpintaria foi também afetada e a cantina da antiga escola, que funcionava como armazém do Folk Monção, foi devorada pelas chamas. Ali próximo, Delfim Sousa, de 61 anos de idade, proprietário de uma oficina de reparação automóvel, lembrava os momentos de aflição.

“Aquilo parecia pólvora”, referia-nos, calculando que se não fosse a ação determinante  dos populares, as consequências podiam ser muito mais graves. Na sua oficina, enquanto a água e a luz não se foram (!!), também regaram e a tentaram proteger. Ali, o fogo chegou pelas 19h30 do último domingo, quase 24 horas depois de iniciado em Merufe, junto a uma central elétrica e às eólicas. Reconhece, porém, que, já sem água e luz, valeram os bombeiros, com uma mangueira de água a defender a sua oficina e outra uma viatura que estava estacionada ali na estrada, com o proprietário ausente e que as chamas ameaçavam.

No Talho do Armando, em Merufe, Maria Manuel, do vizinho lugar de Fornelos, lamentava que as pessoas não se importassem com as chamas enquanto estão longe das suas casas. Dava conta de que têm existido mais ignições, mas nunca se propagaram aos lugares. Desta vez, além do calor e tempo seco, o vento foi determinante… para a desgraça. Já o proprietário do estabelecimento, José Luís, sublinhava que o maldito vento surgiu com mais intensidade na manhã de domingo e o facto de ter passado horas a regar a área em volta de sua casa… foi o que valeu.

Na estrada que liga Merufe a Longos Vales, o cenário dificilmente poderia ser mais desolador. Percorremos quilómetros e quilómetros de área ardida. Uma ou outra construção afetada. Postes e cabos elétricos derrubados. A tragédia chegou ali.

Fomos também até ao lado de lá do rio Minho, cujas chamas, como referimos, o atravessaram. No bairro das Neves, próximo da estação de comboio, a 3 km da vila das Neves e a 5km da de Salvaterra, verificamos a desgraça. Contam-nos que as chamas chegaram como uma “bomba”. Uma fábrica de madeiras, já com alguma dimensão, foi devorada. As chapas das coberturas estavam retorcidas. Numa “venda” ali próxima contam-nos que as chamas chegaram pelas 14 horas de domingo e forma instantes assustadores. Mais ainda quando a água se esgotou e a eletricidade faltou. Valeu um particular, empresário num concelho próximo e com casa na zona, que, com uma cisterna, ajudou os “veciños”. Porque, de resto, apesar das solicitações, nenhuma entidade pública os veio ou pode ajudar.

Segundo Augusto Domingues, presidente da Câmara de Monção, arderam, neste , cinco primeiras habitações mas não se contabilizaram desalojados uma vez que as pessoas afetadas foram acolhidas por familiares e vizinhos. Foram consumidos pelo fogo 28 edifícios devolutos e 51 estruturas de apoio à agricultura.

MINISTRO

Uma nota, ainda, para a presença hoje em Monção do ministro do Planeamento e das Infraestruturas, Pedro Marques, onde, no Arquivo Municipal, tinha reunião marcada com o edil monçanense. Garantiu que os postos de trabalho que  ficaram em risco por interrupção da atividade das empresas afetadas pelos incêndios, “15 postos de trabalho em risco”, em Monção,  numa serração situada em Lordelo, podem ser “salvaguardados” através do recurso ao ‘lay-off’.

Ministro do Planeamento e das Infraestruturas, Pedro Marques, em reunião, no Arquivo Municipal, com autarcas e técnicos da Câmara de Monção
Ministro do Planeamento e das Infraestruturas, Pedro Marques, em reunião, no Arquivo Municipal, com autarcas e técnicos da Câmara de Monção

LONGOS VALES

Ontem à tarde, um mulher de 50 anos ficou hoje ferida com gravidade após uma queda de cerca de 5 metros de altura, da varanda da habitação onde reside, na freguesia de Longos Vales, no lugar de Serzedo.

Na mesma freguesia, hoje de manhã, no lugar da Porqueira, um capotamento de um trator, deixou em estado grave um idoso com  83 anos de idade.

Refira-se, ainda, que em Longos Vales, no lugar de Cesto, um homem de 73 anos,  morreu na terça-feira, no hospital de Braga, após ter caído do trator que conduzia quando tentava salvar as alfaias agrícolas,  no domingo, na sequência do incêndio que lavrava. Foi hoje de manhã  a sepultar.

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