Viagens “a salto” :: Quase metade da construção foi entre 1971 e 1990

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Viagens “a salto

O emigrante dos anos 60 que, maioritariamente, teve a França como destino, tinha como projeto, quase obsessivo, o regresso. Sintoma disso é o facto de, pouco menos de metade dos edifícios construídos no concelho de Monção, ter ocorrido entre 1971 e 1990. Circunstância que se deve a um boom construtivo, em muito derivado ao investimento por parte dos emigrantes.  Um facto que não difere substancialmente noutros concelhos rurais e interiores.

Nesse espaço de tempo, Monção perdeu mais de ¼ da sua população, graças a esse fluxo emigratório em que a clandestinidade, mais do que uma travessia, era uma condição para gente pobre e humilde. 

UM EM CADA DOIS IA “A SALTO”

Com efeito, a viagem “a salto” era algo que se registava em um de cada dois emigrantes.  Experiências arriscadas, umas mais que outras, mas que constituía a esperança de uma vida bem melhor do que aquela a que se viam confinados. 

Os sinais de riqueza que verificavam nos que já tinham partido era um gérmen, aliado, muitas das vezes, à possibilidade de escapar à ida para a guerra colonial – que, no início da década de 60 tinha deflagrado – e na qual muitos jovens, nomeadamente monçanenses, perderam a vida.

Além do decréscimo na população residente, o impacto social e cultural provocou mudanças significativas, com os acontecimentos mais importantes a registarem-se no verão, em contraste com o resto do ano, a paisagem emoldurou-se das casas parecidas, muitas vezes, com as que os emigrantes viam nos países de acolhimento, os hábitos alimentares e de vestir sofreram grandes alterações e, no fim de contas, a emigração proporcionou uma abertura ao mundo. 

Viagens “a salto" :: Quase metade da construção foi entre 1971 e 1990
Caminhavam pela montanha muitas vezes de noite

SURTO MIGRATÓRIO MAIS IMPORTANTE DO PAÍS

“O cosmopolitismo das gentes dos locais mais recônditos do país é espantoso. É extraordinário constatar como tanta experiência do mundo cabe em lugares aparentemente isolados”, escreveu Albertino Gonçalves, um estudioso na matéria. A propósito, este considera que “nenhum surto emigratório teve tanto impacto no país como o dos anos sessenta”.

Essa emigração está, como referem os estudiosos da matéria, em vias de completar um ciclo. O jovem que partiu da aldeia é agora o avô que a ela regressou e está a gozar uma reforma despreocupado em termos financeiros.  

Este fenómeno da emigração para França, na década de 60, foi recentemente discutido em Monção, na Casa Museu da Universidade do Minho. Uma emigração que, inicialmente, foi masculina, caracterizada, muitas vezes, pelo agrupamento de conterrâneos e com a vida a repartir-se entre o trabalho e o alojamento. Mais tarde, no âmbito do reagrupamento familiar, assiste-se ao aumento da emigração feminina, o que beneficiou a qualidade de vida dos emigrantes e a sua integração na sociedade francesa.

HISTÓRIAS DE IDAS “A SALTO”

A VALE MAIS falou com dois diferentes protagonistas dessas idas “a salto” para França, na procura de melhores condições de vida. São histórias idênticas a muitas outras e, por isso, exemplares, no sentido documental, do que foi a mais importante epopeia emigratória de Portugal, um país onde, desde os Descobrimentos, sempre se emigrou.

Viagens “a salto" :: Quase metade da construção foi entre 1971 e 1990
António Conde Gonçalves

António Conde Gonçalves é um desses casos. Este septuagenário fez o ensino primário na sua aldeia, Moreira, tendo, ainda muito jovem, trabalhado como servente em obras e numa oficina de automóveis. Por pouco tempo e com parte dele sem receber ou, então, com remunerações irrisórias.

“Daí a minha irmã dizer-me que aqui não tínhamos futuro e para me por a mexer logo que pudesse”, diz-nos, sorridente, em conversa na esplanada de um café na sua terra, onde é cumprimentado, com notória estima e consideração, por quem passa.

O nosso interlocutor observa também que, além das razões económicas, também, se permanecesse cá, teria de ir para a guerra colonial no, então, ultramar português.

Deste modo, em janeiro de 1963, vai “a salto” para França, numa viagem que demorou 12 dias.

DORMIR COM OVELHAS E VACAS

“Atravessamos o rio numa batela, de noite, dormimos numa casa de um espanhol na zona de As Neves, a mulher era portuguesa; outro dia fui para casa de um lavrador, durante três dias. Chegamos a dormir com as ovelhas e as vacas, no meio dos campos; fomos andando assim e, quando estivemos em França, também fomos para um curral de vacas. Dormíamos em currais e caminhávamos de noite. Houve uma altura em que uma senhora nos meteu num carro, por intermédio dos passadores. Andamos muito quilómetros. Tenho a ideia que chegamos a Vitória (Pais Basco)“, conta.

“Na viagem, comia-se o que calhava. Davam-nos bifes de presunto. Frito. Aquilo era salgado, não se podia tragar . . . Davam-nos muitas pastas de chocolate, comia mais deste. Houve um momento, já em França, em que nos meteram num camião, onde transportavam caixas de cerveja. No meio íamos nós, já eramos umas 70 pessoas. De modo que parecia um camião só com cerveja. O motorista avisou-nos que, quando estivesse parado, nos mantivéssemos calados. Quando fosse a andar, podíamos fazer barulho. Levaram-nos então para perto de Paris, não exatamente para onde queríamos, mas via-se que era local onde havia grandes abarracamentos de portugueses. Não era Bidonville, mas havia grandes obras em que havia muitos portugueses”, acrescenta.

“Chegamos lá, batemos numa porta, conheciam a direção que trazíamos e levaram-nos à pessoas conhecidos que estavam à nossa espera. Comecei a trabalhar, de facto, no dia seguinte” – refere, com orgulho, o nosso interlocutor.

Este dá-nos conta, ainda, da inserção no meio que considera ter sido relativamente fácil, designadamente a nível das questões linguísticas.

Viagens “a salto" :: Quase metade da construção foi entre 1971 e 1990
O comboio era o meu de transporte mais utilizados

 “Nas pequenas mercearias, as senhoras (que estavam a atender), para nos facilitar a vida, mandavam-nos entrar para nós próprios nos servirmos do que pretendíamos, colocávamos no balcão e ela, então, fazia e apresentava as contas” – acrescenta.

Um ano após chegar a Paris, mudou-se para outra região, a uns 200 km de Paris, onde existiam pouco estrangeiros. “Lembro-me bem que, quando fui à Câmara local para meter a minha residência, as pessoas davam-nos a prioridade em como fossemos Deus que chegava ali.”

Dois anos e meio após, com 20 anos, regressou a Portugal, só com passaporte de vinda, pois teria de fazer o serviço militar. No entanto, pediu e conseguiu que este lhe fosse adiado para os 27 anos. “Nessa altura fui à Emigração ao Porto e passaram-me um passaporte para regressar a França. A partir passou a vir a Portugal por ocasião das férias anuais”.

A sua mulher, da vizinha freguesia de Pinheiros, viu-a, pela primeira vez, nesse ano de 1965, durante uma espadelada e em que era a única rapariga que não conhecia. Após a ida para França manteve o contacto com ela, por carta, e casaram em 1966, quando voltou de férias. Tiveram uma filha e um filho (que estão a viver em Monção e Lisboa) e cinco netos.

Com a família e a intenção de o fazer de vez, regressou em 1982, quando Mário Soares, então primeiro-ministro, estava “a pedir aos emigrantes que mandassem para cá as economias e se recebiam juros de 30%, embora a inflação também estivesse muito alta”.

FRANÇA “MUDOU A MINHA VIDA”

“Já tinha um bocado de dinheiro, vim para cá pensando que a coisa ia melhorar”. Três anos depois voltou para a empresa onde trabalhou e que todos os anos, por ocasião das festas natalícias, lhe mandava um postal onde também o convidava a regressar. Voltou reformado, em 2005.

Da sua estada em França, refere ter sido sempre bem tratado e destaca a boa imagem de Portugal em terras gaulesas. Nota, porém, que “conta muito as regiões onde as pessoas moram”. E a dele foi, na maior parte do tempo, Versalhes, uma “vila de burgueses” nos arredores de Paris. Fala do modo como foram sabendo, a pouco e pouco, da revolução do “25 de Abril” de 74 e dos “bons olhos” com que a viu.

“Se não fosse a França, se eu ficasse por cá, valha-me Deus…. Uma pessoa aqui, a trabalhar na agricultura ou nas obras não tinha hipótese. Quando regressei a França disse à mulher: tens dinheiro no banco, vais-te servindo, vou trabalhar e economizar. 

“Comprei lá uma casa pequenina, quatro anos depois vendi-a, comprei outra casa, vendi-a em 2005 por bom preço e comprei um apartamento lá, onde vou todos os meses. Por questões relacionadas com a saúde da minha mulher.  Tenho também cá casa, apartamento no Porto . . . Vejo as pessoas que não saíram daqui. A França mudou a minha vida”- concluiu.

UM “SALTO” EM BOAS CONDIÇÕES

Outro antigo emigrante monçanense que foi “a salto” para França foi Manuel Luís Ruivo Araújo. Ao contrário da maioria das situações então verificadas, esta terá sido ”novidade” por não ter registado grandes sobressaltos. Um facto em que terá pesado o facto de, na sua organização, estar um “passador” como Manuel “Caniço”, conhecida figura monçanense que já não está entre nós. Todavia, como os outros casos, foi na busca de condições económicas mais dignas que as do meio rural e pobre lhe podia proporcionar.

Viagens “a salto" :: Quase metade da construção foi entre 1971 e 1990
Manuel Luís Ruivo Araújo

Nascido em 1950, emigrou, em 1968 para França, quando um tio regressou de Angola, para onde seu pai também tinha ido, e foi para França. A ideia era a de que, quando chegasse a idade da tropa, pedir para ser enviado para Angola, (embora acabasse por ir parar à Guiné).

Fez a 4ª classe aos 11 anos e, como a maioria dos membros da sua família, foi trabalhar de carpinteiro. 

A ida para França foi, pois, “a salto”. No dia 28 de novembro de 1968, pelas 6h da manhã, foi para Braga numa das carreiras de autocarro. O passador era casado com uma sobrinha do seu tio, que era o fiador da viagem. 

Lembra-se de outros companheiros de viagem, como o “Fernando das Agras que tinha vindo da Guiné e morreu em França, num acidente, em 11 de janeiro de 1969. 

Em Braga juntaram-se a outros da Madeira, trazidos por outro passador. Ao todos, eram 11. “Dali fomos para Chaves, dormimos numa espécie de pensão, tomamos pequeno almoço, num camião levaram-nos até perto da fronteira, passamos à beira do quartel militar, deixamos o camião, atravessamos um riacho e estava uma senhora do lado espanhol que nos levou para outro pensão. A minha mala até ficou lá esquecida. Foi o irmão do Caniço que me arranjou roupa para lá trabalhar. Em Espanha apanhamos o comboio e dali fomos até próximo da fronteira francesa (Irun). Um de nós tinha 17 anos e não pode passar. Fomos sempre de comboio, acompanhados pelo Caniço, até à região parisiense. Quem tinha 18 anos ou mais tinha direito a um papel que lhe dava livre passagem. Já quem tinha menos, teve de passar por outro local onde não havia posto fronteiriço. De resto, durante a viagem, se calhar, tivemos até melhores condições do que tínhamos em Portugal.”

Já em França, para se conseguir a “carta de cesjour”, que permitia a permanência, tinha de se entregar o tal documento em papel.

AO LÁ CHEGAR

“Foi engraçado”, considera o ex-emigrante. “Havia uns primos do Manuel Caniço que já tinham ido para a região norte. Tinha lá uma espécie de bungalow para o pessoal das obras. Íamos cansados da viagem e o senhor Cunha, de Paredes de Coura . . . no domingo, bem cedo, estava uma galinha a cantar debaixo da barraca. Tinha-a comprado e deixado ali. De manhã mataram-na, fez-se um arroz de cabidela. Foi ele que nos alimentou nesse dia.”

Na segunda ele foi saber de trabalho e começamos a trabalhar na terça, dia 3 de dezembro de 1968. Na construção, como carpinteiro na cofragem. Regressei em 1970, fui buscar ao consulado em Paris o passaporte de vinda, para as inspeções miliares e, na oportunidade, assoalhei a casa da minha mãe. Fui às inspeções, mas já com a ideia de ir outra vez, “a salto”. Falei com o Zeca das Necas e apanhei o comboio em Espanha. Estive em França até ir para a tropa”. 

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Muitas das travessias “a salto” eram nestas frágeis batelas

Não contava ir, mas as cartas da mãe e o seu nome que estava “na porta da igreja” fizeram com que voltasse. Fez a recruta em Braga, andou a ver se se safava de ir para o ultramar através de uma “baixa”, chegou a dar 100 mil escudos (que lhe foram devolvidos), fez a especialidade em Évora, esteve dois anos na Guiné e, depois, voltou a França e para o mesmo patrão.

Reformou-se em 2011, após 41 anos de França. Vinha todos os anos nas férias e foi numa delas que conheceu a que viria a ser a sua mulher. Os seus filhos nasceram e vivem em França, onde também está o seu neto.

Lá convivia, basicamente, com familiares e conhecidos de Portugal. “Aqueles que querem obter qualquer coisa não podem perder muito tempo nos cafés, nem coisas assim. Se a gente quer economizar, está sempre naquela de trazer para cá. Caso contrário, não tinha o que tenho”. Manuel Luís investiu no imobiliário, quer em França, quer em Portugal.  Lá “deram-me valor”, adianta, chegando, nesse sentido, a efetuar deslocações a países como Argélia e Arábia Saudita.

De resto, considera que, durante 33 anos, viveu num sítio “fabuloso” da região de Paris, com pessoas com quem confraternizava e que tinham um papel importante na vida pública. “Houve uma que era diretora de serviços da assembleia nacional, uma outra senhora que foi ministra da Cultura . . . nunca me senti discriminado”. 

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