Vilarinho da Furna :: Harmonia, Granito e Água

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Vilarinho da Furna :: Harmonia, Granito e Água

Eis que o cortejo atinge o fim, a população de Vilarinho da Furna remonta a serra, os últimos a partir levam o caixão de defunto que transportava os mortos para o cemitério: um único caixão, bastava para todos. 

Jorge amado – Vilarinho da Furna

Era Vizela, fim de semana de fevereiro abraçado a 2005. Portanto adolescente agora. Os amigos músicos, cansados, a destilar maduros, pelas 5 da manhã rumaram a casa. O Henrique, já com a carrinha a trabalhar,  acenando adeus ainda disse; – é verdade, sabes que a aldeia de Vilarinho está à mostra? Ah sim? Hum… lá se foi o descanso e a bebedeira. Tinha a Zenit, 4 rolos e sono nenhum. O amigo tinha uma caçadeira digital. E lá fomos. Por Braga, Caldelas, S. João do Campo e por fim, aquele muro barrigudo da barragem para encostar o carro.

Nascia o dia quando o lugar foi acontecendo por patamares de magia. O silêncio pigmentava de anilinas azuis o reflexo da água. A luz abria em leque o seu mostruário de diferentes matizes entre o amarelo e o ouro. Era um silêncio em bicos de pé… aos poucos fomos chegando ao ponto em que o desmaio do espanto tenta a sua sorte.

Quando, no mirante casual, a aldeia surge em todo o seu esplendor, com semelhante luz, a alma localiza o granito e senta-se… O olhar grita e quer fugir. O que é isto?? Tanta beleza oprimida em demasiado silêncio.

Um esmagamento que se alarga, murmura e funde por todo o espaço. Somos poeira num lugar assim. Foi a segunda vez que passeei na lua. A primeira foi em sonho quando não sonhava realidades. A densidade do corpo fica reduzida ao olhar. Nada mais faz falta. Um acorde duma flauta dum pastor, talvez. Aqui e ali. Um balido duma ovelha… talvez… mas aquilo agora é só harmonia, granito e água. E o bruto basqueiral do silêncio. O próprio caminhar apantufa o passo. Um húmus seco, prateado, lunaticamente brilhante, nos sussurra a cada pegada. Por vezes, há partículas de medo a segredar-nos ao ouvido. Medo de quê? Que se acabe a magia, que as águas voltem? Sim… se calhar o medo daquele lugar é a água… e por isso vê onde pões os pés… e por isso respeita este teatro de adereços impossíveis para um espaço que herdas de memórias visuais…

Sentados, ali ficámos por uns tempos, como numa catedral a meditar em vaidades efémeras e servidão humana. Conquistas e Portugalidades. Os primeiros invasores foram os Vândalos, Suevos e Alanos no ano de 409. Os Vândalos voltaram em 1971… Atacaram com cimento e criaram um viveiro eléctrico.

A Montanha, que era a grande Mãe de todas as suas crenças, vivências, sobrevivências e o eterno futuro ficou de molho. Para governo de meia dúzia de voltes… ou quilovolts, sei lá… Dar cabo dum sítio assim, só mesmo na cabeça dum mesquinho humanoide… perto de 60 habitações, 250 habitantes, duas ou três capelas, duas pontes medievais,2 fornos do povo, milhares de cabeças de gado, um sistema comunitário único onde a palavra corrupção inexistia… enfim, amputou-se uma célula viva da nossa mais pura herança de amor à terra e ao próximo…

Vilarinho não é uma ruína. A alma não precisa de telhados. Quando se visita um lugar assim, visita-se um templo único em que a memória prevalece. Aquela estrutura óssea de granito e fendas, de riachos  e vales que direcionam a perspectiva para o encontro  dos mares, não desaparece nunca. Até penso que é a própria natureza a recuperar aquilo que lhe foi pedido emprestado. Da maneira como corre o mundo atual, alguém já disse, que se Vilarinho fosse “vivo”, hoje teria uma avenida de “mesons” e outros atentados do género  do seu lugar até S. João do Campo…

Vilarinho permanecerá eternamente Belo na memória daqueles que mais o sentiram.

Harmonia, Granito e água…

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